VISITA AO ZITO - GUARDIÃO DA CAATINGA

Produção Sustentável no Semiárido. Monte Santo, Bahia, novembro de 2019

José Elias, conhecido por Zito, é agricultor familiar na comunidade Lagoa do Saco, no Município de Monte Santo, no Sertão da Bahia. “Há quatro coisas que não abro mão na minha propriedade: barrar riacho, recuperar o solo degradado, fazer manejo dos animais e guardar sementes criolas. Trator não entra na minha propriedade. Trabalho com a inchada e com a tração animal.”

Numa caminhada pela propriedade, podemos ver cada uma dessas práticas e o resultado. Distribuído pela propriedade, há vários pequenos buracos e barragens para captar a água da chuva. A ideia é para a água ser absorvida pelo solo. Seu Zito também tem uma cisterna de 52.000 litros para captar água da chuva para utilizar para os animais e na horta.

Um conjunto de práticas ajuda na recuperação do solo na propriedade. Seu Zito nos leva para um pedaço de terra onde havia plantado e colhido milho. A terra está coberta pela palha seca e as sobras do milho. “Os agricultores costumam levar os animais para comer esses restos da plantação. Quando a terra está limpa, plantam novamente. Essa prática contribui para a degradação da terra, porque os animais compactam o solo, e a chuva leva matéria orgânica e nutrientes quando cai na terra limpa”, explica Seu Zito. “Hoje eu faço diferente: Deixo os restos do plantio para formar uma cobertura que vai melhorando o solo e o protege do calor e segura a água. Os animais não entram mais aqui. Para acelerar o processo de recuperação do solo, acrescento outra matéria orgânica, como a lama tirada do fundo do tanque, o adubo do curral e bagaço de sisal.” Em partes do terreno Seu Zito fez pequenas barreiras de material orgânico para impedir que a chuva leva embora a cobertura. O plantio de árvores nativas, principalmente o umbuzeiro, é outra prática para melhorar o solo e aumentar a produtividade da propriedade. “Planto a muda de umbu quando está com menos de 20cm. Nesse tamanho, ela já formou uma pequena batata para armazenar água. Não precisa de irrigação. As vezes o umbuzeiro nasce sozinho das sementes que o bode comeu e que ficam no esterco.” Além do umbu, tem pés de acerola e outras frutíferas.

Considero o pé de umbuzeiro uma planta abençoada no nosso sertão: Ele perde todas as folhas e dá flor quando o tempo estiver mais seco, porque tem água armazenada na batata.”

Chama atenção a grande plantação de palma forrageira. A palma é o plantio principal na propriedade, serve para a alimentação dos caprinos e ovinos e para vender. Os caprinos e ovinos estão numa outra parte cercada do terreno no meio das árvores. Seu Zito cria caprinos, ovinos e algumas galinhas que circulam pela propriedade e ficam no galinheiro à noite. A maior parte da alimentação dos animais vem da propriedade. Seu Zito mostra a forrageira. Para preparar a ração caseira, Seu Zito tritura o milho com a palha e outra parte da planta. “Aproveito toda a planta, com isso minha ração ganha volume e fibra. Quando somente se dá o grão do milho, a ração fica concentrada demais e somente engorda o animal, sem oferecer a fibra e outros nutrientes.,” explica. Também acrescenta folhas de plantas medicinais à ração, como pau de rato e incó.  “Meus animais estão muito sadios, preciso gastar quase nada com remédios.”

Dentro de uma casa tem a coleção de sementes criolas do agricultor com mais de 32 variedades. Quando vai para os encontros e seminários, Seu Zito leva uma pequena quantidade de sementes pouco encontradas para trocar com outros agricultores.

“Tiro 100% do meu sustento da agricultura familiar”, afirma Seu Zito. “Tenho de cada coisa um pouquinho, meus caprinos e ovinos, meu sisal, feijão, acerola, ovos da galinha, a galinha, o mel. Quando Você junta tudo isso, não sobra muito dinheiro, mas também não gasto dinheiro. Para o agricultor sobreviver no semiárido, Você tem que ter essa diversidade de receita.”

Dá muito trabalho essa forma de trabalhar sem ajuda de máquinas? “Trabalho sozinho na propriedade, as vezes meu filho, que tem outro emprego, me ajuda. O trabalho não é muito pesado. Planejo minhas atividades, acordo as 4 horas, a maior parte do trabalho é feito cedo e no final do dia. Ainda sobram dois dias por semana para as reuniões e os encontros.”  Seu Zito é Presidente da ARESOL, associação que organiza os agricultores para a comercialização, presta apoio técnico e financia grupos produtivos com o Fundo Rotativo Solidário.

A visita foi uma verdadeira aula. Fica evidente a paixão e o compromisso de Zito com a conservação da Caatinga. “A terra é como nossa mãe. Ela nos sustenta, nos dá tudo. Como é que o ser humano bota veneno na terra para ela produzir na marra e queima o mato? Para a terra nos sustentar, nós temos que sustentar ela também, cuidar dela.” 

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